Prêmio ASA em Saramenha
É sábado, é manhã bem cedo, em Saramenha. Sô Caiaca já está de porta aberta. Sonen entra, pede café com pastel de carne. A seguir, Fófo dá uma paradinha em frente o bar, olha pra dentro e dá um sonoro bom dia. Sô Caiaca não perde tempo e diz logo de cara que Disgreta merece ganhar o prêmio da ASA.

Sonen e Fófo entreolham-se sem entender patavina... ASA? Prêmio? O que Disgreta tem a ver com isso?.... A dúvida paira no ar de Saramenha.

Pistoleiro, Bizôrro e Bié chegam, Fófo e Sonen dizem a eles sobre o ocorrido. A curiosidade toma conta, a notícia se espalha assim que cada um vai fazer os seus afazeres de sempre "pegar sabiá na lagoa, pintassilgo nos pés de eucalipto, curió na Rancharia, jogar ranca, caçar murici, maria preta, gabiroba, catar topázio amarelo na subida da Bauxita, pegar cambeba em algum córrego que passa próximo da casa dos Mapa...".

Lelê e Lica, revoltadas, dizem "Sô Caiaca quer deixar os meninos doidos com essa história de ASA, prêmio e Disgreta".

Zé Cumprido, Lalão e Geraldo Lagartixa se enchem de coragem e vão para o bar pedir ao Sô Caiaca que esclareça esse rolo. Sô Caiaca só diz "agora não, estou ocupado". Os três saem de lá diminuídos, principalmente o Zé Cumprindo, pois ele tinha prometido à Nena, Zuzu, Lilu, Nêga, Pitucha, Calminha e Lizete que iria esclarecer tudo.

Paulo Munheca até pensou em tomar coragem e exigir que Sô Caiaca esclarecesse todo esse auê, mas faltou-lhe pulso e, também, naquela época não se usava falar em "auê". Caré nem pensou em dizer nada, ou melhor, só pensou "eu, hein?, deixa quieto". E acabou desistindo de comprar maria-mole.

Pintinho do Tiniu, Butão e Prego resolvem encarar Sô Caiaca. "Ou vai ou racha", pensaram. Sô Caiaca ao vê-los com cara de quem comeu e não gostou, diz que é melhor eles comprarem um K-Suco de groselha, fazê-lo bem geladinho e ir assistir Rin-Tim-Tim na televisão. O "ou vai ou racha" parece que acabou se rachando, pois Pintinho saiu com o dele entre as pernas, Butão ficou com o próprio na mão e Prego desistiu de martelar ideias, cansou, ficou pregado.

Tinica, Pemba, Totoia e Piriá não se continham, Saramenha em peso queria saber que negócio era esse de ASA, prêmio e Disgreta...

Seis horas da tarde, hora do Sô Caiaca fechar o bar, uma multidão de gente se aglomera na calçada, na rua, nos muros do campo de futebol e da piscina, o trânsito para, todo mundo de olho no bar, já que ninguém suportaria ficar até segunda-feira sem saber o que Sô Caiaca queria dizer com "Disgreta merece ganhar o prêmio da ASA".

Até onde pude ver, estavam lá Merrão, Zuzuca, Bingo, Butão, Jaizinho, Zé da Nazinha, Jacó, Estileta, Sá Onça, Jiló, Palito, Beteta, Manteiga, Pinto, Pintinho do Tinil, Bié, Sabiá,  Lôro, Porcão, Cuei, Zezé de Dona Dilah, Maria Pinga, Canelão, Sonem, Zé Banha, Zezé Boia Quente, Miguel Brobrô, Futeco, Tamar, Raimundo Piçarra, Bizôrro, Landim, Bubuca, Boizinho, Penenem, Billy, Maucim, Pistoleiro, Mão, Gagaça, Tátio, Papi, Iscurim, Tuquim, Tiza, Pitita, Pedro Rabicó, Didia, Mazé, Lelê, Paulo Munheca, Lica, Teteco, Bolão, Prego, Pitucha, Zia, Zuzu, Zeca, Nena, Já, Lili, Lilu, Béco, Zé Cascudo, Totó, Calminha, Nêga, Nico, Lolô, Lizete, Jezin, Porcão, Pemba, Totoia, Caldeirão, Zé Cumprido, Zazaia, Adão Longuinho, Lalão, Geraldo Lagartixa, Cambeba, Piriá, Caré, Diti, Nozinho, Tôin, Zé Vovô... acho que só faltou o Disgreta, pois ele tinha quebrado a perna no jogo contra o Guarani, ficando assim de molho em casa.

A tensão aumenta.  

Sô Caiaca chama o Tiã num canto do bar e diz pra ele chamar o Pedro Rabicó. Pedro Rabicó entra no bar. Sô Caiaca diz "Rabicó, fala pra esse povo aí fora que... que... 'inaudível'... e se eles não entenderem, diga que é melhor cada um, pelo menos, começar a entender que berimbau não é gaita, agogô não é banjo e rabicó não tem rabo".

Rabicó, depois de fazer alguns trejeitos indecifráveis, foi para a porta do bar e disse "meu povo, saramenhenses de cima, de baixo e dos lados, calma, vocês podem ir para a casa, Caiaca acabou de me dizer que Disgreta é que merece ganhar o prêmio da Academia Saramenhense de Apelidos (ASA). 

E alguém discorda?

[bãoPAdaná]

Nota 1: Gostaria de deixar registrado que essa simples e, espero, divertida crônica seria impossível de ser feita sem a participação da Giselia Maria Ribeiro Brandão, a filha do Senhor Acaiaca e da Dona Candinha. Gisélia, menina de ouro, que luta bravamente para manter acesa a chama dos saramenhenses de ontem, hoje e sempre. E viva Saramenha!

Nota 2: Saramenha é um bairro industrial de Ouro Preto distante desta 3 Km, que durante as décadas de 30, 40, 50 , 60 e metade de 70 do século XX sustentou financeira, gerou empregos e incrementou o comércio em Ouro Preto, a famosa cidade mineira, hoje Patrimônio Mundial, pois Ouro Preto foi a única cidade histórica durante os períodos relatados que tinha, em Saramenha, a segunda maior fábrica de alumínio da América Latina, à época, tendo, portanto, condições de manter todo o seu patrimônio e acervo histórico intactos, o que não ocorreu com as demais cidades históricas mineiras que viu quase todos o seus patrimônios e acervos serem corroídos, além das casas dos moradores, por não terem condições de manter seus imóveis intactos, viu seus bens sendo deteriorados. Lembro-me que em determinada época o pessoal de Ouro Preto reclamava da poluição da fábrica. Engano ledo. Bendita poluição, pois sem ela Ouro Preto jamais seria Patrimônio Mundial, seria sim mais uma cidade mineira devastada pela falta de condições para manter-se de pé.